11
mai
09

Quase pronto

 

espreita...

Que as palavras venham,
Despertem as dobras
Onde algo resta
E se deita sem nome
Nem sentido.

E deslizando livres,
Feito cócegas,
Ericem cores, poros,
Papilas e pelos.

Façam ponto em cada ponto
- seco ou indisposto –
Do poema à espera
De  corpo ou esboço
Nesta página, campo
E pouso
De meus silêncios e feras à espreita

 

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11
mai
09

Quase pronto

 

espreita...

Que as palavras venham,
Despertem as dobras
Onde algo resta
E se deita sem nome
Nem sentido.

E deslizando livres,
Feito cócegas,
Ericem cores, poros,
Papilas e pelos.

Façam ponto em cada ponto
- seco ou indisposto –
Do poema à espera
De  corpo ou esboço
Nesta página, campo
E pouso
De meus silêncios e feras à espreita

 

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06
mai
09

Pressentimento


Pressentimento, Wishful thinking
Upload feito originalmente por Eye8Pudding

Fome,

Um pouco de sono, cara lavada. Tremo. Arrisco 

Começo o dia

Quero mais água e mais um sonho
Engraçado, tô me achando mais alta, mais magra, menos eu,

Mais nada!

Será que chegou a hora? Devo ir, talvez, pra África? Cumprir rituais?
Ou, quem sabe, profana, ler a Bíblia?

Depois disso, sacralizar minha carne,

Uma vez mais  
Vir a ser sujeito dessa alquimia feminina?

Agora? Não tenho toda a idade.

Tanto compromisso,  novena
Trabalho, Eu não cumpro 
Nem horário.

Hoje me detenho. Só levo a sério, aquilo que gosto.
Esforços com rimas impossíveis, 
Alguns flertes com novas escritas.

Sou o azarão de todas as apostas.
Faço prosa no lugar de poema 
Apago! Brigo. Reato.

Sinto muito, filha, 
Serei uma avó esquisita. 
Você cozinha bem enquanto eu brinco 
E rio de aprender a ser pequena
E a escrever com minha neta.  

Come,
E, por favor,
Não grita.

04
mai
09

Vazia blavina

Nota introdutória:

Postei aqui Que sais, je, Clarice? , confessando meu sentimento de vazio. Aí fui até o Estúdio e dei de cara com uma proposta genial dos colegas dos Volmar Camargo Junior e Juliana Blasina.

Eles inventaram um soneto assim constituído – número de estrofes: 7; numero de versos: 13, distribuídos a partir dessa sequência: 1-2-3-1-3-2-1; tamanho dos versos: o objetivo é que o poema comece e termine com uma palavra, e que vá "aumentando" até chegar ao verso-estrofe central. Batizaram lindamente sua cria: blavino. Bem Blasina e Volmar. Vi blavinos belíssimos lá no Estúdio. Colheita – Blavino-n. 1, Cat on rot tin roofIminente, Estrada. Todos em forma de flecha, que eles chamam de pirâmide.

Eu sei porque vi flecha: naquele momento era o que eu precisava; direção pra minha linguagem que se perdia. Agradeço a eles e a todos que aqui me consolaram no Que sais, je, Clarice?

 

Vazia

Da palavra cheia

Que sais, je?

Se é tensão pré-metáfórica,

Outro embate com os objetos-eu,

Ou se é você anestésico e sem desejo?

Olho as paredes, a mariposa imóvel na rede até quando?

Vejo a poltrona assinada pela marca

Onde sonha a preguiça vagabunda,

O gato neste naco de mundo

Objetos que me fundam,

Cercam, espero-os

Prosaicos

 

 

 

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02
mai
09

Rei Creso, Netanyahu, Caminho das Índias e esquizofrenia

soloncr

             

O tempo de redigir é o presente e é tenso. Tempo da iminência, urgência. Por isso, falo de dois temas cuja relação para mim é, ainda, desconhecida. Talvez, porque tratem de memes, padrões de comportamento mental repetidamente ativados e transformados em verdades, palavras de ordem, visões de mundo e preconceito. E os dois insistem desde ontem, a partir de ficções que imitam a vida ou será a vida que imita a arte, como indagou Oscar Wilde.

O primeiro tema trata, da história de Creso, último rei da Lídia, que no século 6 A.C que perante o inquietante avanço do rei Ciro II da Pérsia, enviou um mensageiro ao oráculo de Delfos que lhe respondeu que se conduzisse um exército contra a Pérsia, destruiria um grande império. diz a lenda: tentado pelo que disse o Oráculo, Creso organizou uma aliança com Nabonidus da Babilônia, Amasis II do Egito e a cidade grega de Esparta e partiu para a guerra, no entanto a guerra não correu como esperado. Ciro venceu Creso e o fez prisioneiro. O vaticínio foi cumprido: um grande império – o Lídio – foi destruído.

Meu pensamento não dá saltos muito lógicos, nem por isso, deixo de associar o rei que não soube interpretar o oráculo com a cautela dos sábios a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, disposto a retomar as negociações de paz sem condições prévias com os palestinos. Ao assumir uma postura ressentida, manipulando a opinião pública contra o Iran, aludindo a um 2º holocausto, Netanyahu , provavelmente assolado por interesses políticos óbvios mas não menos por dor profunda, cria para os outros além dele mesmo. Mais ainda, ele se despreza um exército pan arábico, coordenado pela Turquia (antiga Lídia do rei Creso) e Síria que, facilmente, faria um grande estrago a partir das colinas do Golan, espalhando-se por todo bloco oriental de Israel.

beniamin-netanyahu

Se Netanyahu quer parar o Iran, nada indica que para o mundo, não seria interessante um Iran com armas nucleares parando o delírio de Neanyahu – Creso que cumpriria, assim, o vaticínio oracular marxista e faria a história ser repetida de forma mais patética. Um grande-pequeno país que é Israel seria destruído se essa bravata não for contida. Ressalto que não defendo os palestinos.

Conheço Israel porque lá estive durante um tempo razoavelmente logo. Vi os dois lados e concluí que se Israel é visto de forma distorcidíssima pelo mundo ocidental, os palestinos também o são. É uma pena que ao defender palestinos à moda memetizada do politicamente-correto (pelonasmo dos pleonasmos) esqueçam-se dos abusos que a liderança islâmica comete contra seu próprio povo, fazendo-o refém de hizbollahs e afins.

Num lance de memória afetiva que pode ser acusada de epifânica e romântica, volto às manifestações de paz, das quais participei levada por amigos escritores, psicanalistas, poetas, professores universitários da área de cinema e teatro, lá em Tel-Aviv, na antiga Praça dos Reis, hoje Praça Rabin. Desde os anos 90, israelenses – sabras feito os cactos do deserto do Sinai- espinhosos e rudes por fora e dulcíssimos por dentro – olhavam o futuro com toda esperança.

 

esquizofrenia

 

O outro tema é o da esquizofrenia, que vem pela ficção de Glória Perez, Caminho das Índias. A novela mostra a lenda que cerca a doença mental. Dois personagens jovens sofrem acometidos por doença crônica, e, portanto passível de controle pelo tratamento e que, hoje atinge 1% da população no mundo. De um lado Tarso, magistralmente interpretado por Bruno Gagliasso, cuja família classe média alta nega toda sua dor por preconceito e/ou neurose (não seria a mesma coisa?). Do outro lado, Ademir, magistralmente também interpretado por Sidney Santiago, que está em tratamento, só possível com o apoio da mãe e do irmão e consegue levar uma vida mais plena, expressando–se através da musica, sua escolha terapêutica, no âmbito do método criado pela genial Nise da Silveira.

Estudo divulgado pela revista médica britânica "The Lancet" informou que 43% das pessoas que sofrem de esquizofrenia sofrem algum tipo de discriminação por parentes ou amigos. E por isso, segundo pesquisa realizada pela Secretaria de Estado da Saúde e divulgada em abril de 2008, mais da metade dos pacientes psiquiátricos internados em hospitais do estado de São Paulo foi abandonada pela família e há um ano ou mais não recebem visitas. Deste modo uma novela, que o politicamente-corrreto, também ataca, presta importante serviço à população ao sensibilizar sobre a importância da reflexão sobre o preconceito contra a dor psíquica.

Assim como não vejo só um lado da questão no conflito árabe–israelense, não posso me furtar a insistir que muitos jovens de todas as classes sociais estão ameaçados por uma epidemia de psicoses tóxicas, disparadas pelo abuso de drogas como maconha (sim um “tapinha” da maconha de hoje, cujas cepas são geneticamente manipuladas desde os anos 70 é uma pancada dolorosa, equivalente a oito doses de malte escocês nos neurônios), metanfetamina (ice, cristal), crack e cocaína, sem falarmos no álcool que é uma droga socialmente permitida e nas seitas de daime e suas promessas desonestas em oferecer A VERDADE que infestam as cidades. Sei que há alguns grupos daimistas honestos contados nos dedos de uma só mão.

Nesta manhã de garoa, aqui na Bahia, de volta aos memes, à lenda, ao preconceito e à moda do politicamente correto, por favor, leitores, peço-lhes que parem um minuto, respirem , pensem com liberdade e repensem nas palavras de ordem: pela descriminalização das drogas, pela análise partidária do estado de Israel, pela simpatia ingênua aos abusos dos xiitas – islâmicos ou castristas, lulistas, petistas, deste presente tenso, complexo e eletrizante.

Shabat shalom a todos!

 

 

 

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02
mai
09

Rei Creso, Netanyahu, Caminho das Índias e esquizofrenia

O tempo de redigir é o presente e é tenso. Tempo da iminência, urgência. Por isso, falo de dois temas cuja relação para mim é, ainda, desconhecida. Talvez, porque tratem de memes, padrões de comportamento mental repetidamente ativados e transformados em verdades, palavras de ordem, visões de mundo e preconceito. E os dois insistem desde ontem, a partir de ficções que imitam a vida ou será a vida que imita a arte, como indagou Oscar Wilde.

O primeiro tema trata, da história de Creso, último rei da Lídia, que no século 6 A.C que perante o inquietante avanço do rei Ciro II da Pérsia, enviou um mensageiro ao oráculo de Delfos que lhe respondeu que se conduzisse um exército contra a Pérsia, destruiria um grande império. diz a lenda: tentado pelo que disse o Oráculo, Creso organizou uma aliança com Nabonidus da Babilônia, Amasis II do Egito e a cidade grega de Esparta e partiu para a guerra, no entanto a guerra não correu como esperado. Ciro venceu Creso e o fez prisioneiro. O vaticínio foi cumprido: um grande império – o Lídio – foi destruído.

Meu pensamento não dá saltos muito lógicos, nem por isso, deixo de associar o rei que não soube interpretar o oráculo com a cautela dos sábios a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, disposto a retomar as negociações de paz sem condições prévias com os palestinos. Ao assumir uma postura ressentida, manipulando a opinião pública contra o Iran, aludindo a um 2º holocausto, Netanyahu , provavelmente assolado por interesses políticos óbvios mas não menos por dor profunda, cria para os outros além dele mesmo. Mais ainda, ele se despreza um exército pan arábico, coordenado pela Turquia (antiga Lídia do rei Creso) e Síria que, facilmente, faria um grande estrago a partir das colinas do Golan, espalhando-se por todo bloco oriental de Israel.

Se Netanyahu quer parar o Iran, nada indica que para o mundo, não seria interessante um Iran com armas nucleares parando o delírio de Neanyahu – Creso que cumpriria, assim, o vaticínio oracular marxista e faria a história ser repetida de forma mais patética. Um grande-pequeno país que é Israel seria destruído se essa bravata não for contida. Ressalto que não defendo os palestinos.

Conheço Israel porque lá estive durante um tempo razoavelmente logo. Vi os dois lados e concluí que se Israel é visto de forma distorcidíssima pelo mundo ocidental, os palestinos também o são. É uma pena que ao defender palestinos à moda memetizada do politicamente-correto (pelonasmo dos pleonasmos) esqueçam-se dos abusos que a liderança islâmica comete contra seu próprio povo, fazendo-o refém de hizbollahs e afins.

Num lance de memória afetiva que pode ser acusada de epifânica e romântica, volto às manifestações de paz, das quais participei levada por amigos escritores, psicanalistas, poetas, professores universitários da área de cinema e teatro, lá em Tel-Aviv, na antiga Praça dos Reis, hoje Praça Rabin. Desde os anos 90, israelenses – sabras feito os cactos do deserto do Sinai- espinhosos e rudes por fora e dulcíssimos por dentro – olhavam o futuro com toda esperança.

O outro tema é o da esquizofrenia, que vem pela ficção de Glória Perez, Caminho das Índias. A novela mostra a lenda que cerca a doença mental. Dois personagens jovens sofrem acometidos por doença crônica, e, portanto passível de controle pelo tratamento e que, hoje atinge 1% da população no mundo. De um lado Tarso, magistralmente interpretado por Bruno Gagliasso, cuja família classe média alta nega toda sua dor por preconceito e/ou neurose (não seria a mesma coisa?). Do outro lado, Ademir, magistralmente também interpretado por Sidney Santiago, que está em tratamento, só possível com o apoio da mãe e do irmão e consegue levar uma vida mais plena, expressando–se através da musica, sua escolha terapêutica, no âmbito do método criado pela genial Nise da Silveira.

Estudo divulgado pela revista médica britânica "The Lancet" informou que 43% das pessoas que sofrem de esquizofrenia sofrem algum tipo de discriminação por parentes ou amigos. E por isso, segundo pesquisa realizada pela Secretaria de Estado da Saúde e divulgada em abril de 2008, mais da metade dos pacientes psiquiátricos internados em hospitais do estado de São Paulo foi abandonada pela família e há um ano ou mais não recebem visitas. Deste modo uma novela, que o politicamente-corrreto, também ataca, presta importante serviço à população ao sensibilizar sobre a importância da reflexão sobre o preconceito contra a dor psíquica.

Assim como não vejo só um lado da questão no conflito árabe–israelense, não posso me furtar a insistir que muitos jovens de todas as classes sociais estão ameaçados por uma epidemia de psicoses tóxicas, disparadas pelo abuso de drogas como maconha (sim um “tapinha” da maconha de hoje, cujas cepas são geneticamente manipuladas desde os anos 70 é uma pancada dolorosa, equivalente a oito doses de malte escocês nos neurônios), metanfetamina (ice, cristal), crack e cocaína, sem falarmos no álcool que é uma droga socialmente permitida e nas seitas de daime e suas promessas desonestas em oferecer A VERDADE que infestam as cidades. Sei que há alguns grupos daimistas honestos contados nos dedos de uma só mão.

Nesta manhã de garoa, aqui na Bahia, de volta aos memes, à lenda, ao preconceito e à moda do politicamente correto, por favor, leitores, peço-lhes que parem um minuto, respirem , pensem com liberdade e repensem nas palavras de ordem: pela descriminalização das drogas, pela análise partidária do estado de Israel, pela simpatia ingênua aos abusos dos xiitas – islâmicos ou castristas, lulistas, petistas, deste presente tenso, complexo e eletrizante.

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30
abr
09

Chiaroscura

gatoescondecabeça

now a lay me down, by littlerottenrobin

Um olhar seco diminui o brilho
Verde lúbrico 
E um frio
Avisa – a dor é Clara

O corpo crispado,
Ela me olha de lado
E no passo a passo cuidadoso, lá vem ela
- Mal estar em silêncio - 
Senta tensa ,
Bem na frente santa
De minha angústia

E quase me acalma,
Não fosse o repuxo no couro,
O estremecimento mudo
No rajado do pelo, a dor do mundo

Em movimento desastrado,
Sua fragilidade a faz sem graça,
Sem cálculo
Derrubando copos, saltando errado

E se o sofrimento é imenso,
Nós duas sabemos,
O único jeito é se esconder pelos cantos
Evitar encontros,
Constrangimentos

Minha gata não me quer longe,
Nem muito perto
Ela me quer alerta,
Velando a madrugada,
Fazendo-lhe o carinho mais leve,
Sem palavras nem um pio!

Logo a bem-te-vi virá
Piar bom dia em liberdade,
Enquanto ela é predadora domesticada,
E aguenta aborrecida
Toda a alegria dessa pássara
Recém-desperta,
Mostrando a cria e asas frescas

Mas ela sabe esperar
O rasgo prestes a sangrar
Agora? Ainda não.
Encolhida, entre o final da noite e o começo da alvorada,
Ela me olha

Um palmo nos separa,
O genoma nos diferencia
Felina, tão sábia,
Quanto mais sofre menos mia

Eu, humana, quando me dói a alma
E o corpo agita ,
Reclamo em gemidos, faço conflito com a vida
Apago verdes, congelo  os sentidos
E disparo avisos
De frio e dor escura

 

 

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29
abr
09

O Filme da Minha Vida

O Último Tango em Paris 

A proposta de Vanessa, uma blogagem coletiva sobre O Filme da Minha Vida, despertou meu interesse porque cinema é teia onde fragmentos de mim são capturados e transformados em sonho. A sala escura, a tela, o som, durante duas horas, tem poder de transformação. Ir ao cinema é festa e emoção. Sempre foi um dos maiores prazeres.
Escolher O filme foi desafio feito decidir de qual dos meus dois gatos eu mais gosto, qual dos meus dois filhos mais desperta meu humor (eles me divertem). Se prefiro a noite ou o nascer do dia. Compulsiva, para mim é muito difícil decidir. Vivo às turras com um tudo que é todo. Não quero perder ao escolher. Eu sei, é infantil ficar perdida entre filmes, amigos, filhos, gatos, livros, momentos do dia.

E eu, politicamente incorreta, assumo a marca daqueles tempos em que para ser desejada, não era preciso ser gata pré-lambaerobizada nessas academias de piti-gente e não me preocupava mais com saúde e beleza do que com tesão. E os homens que me interessavam, e ainda me interessam, embora tivessem uma postura prática de esquerda, não impunham o “relativismo moral” como filosofia, para, a partir do verniz politicamente correto, transformarem um assassino como Che Guevara em herói e Fidel Castro, um psicopata, em objeto de culto. Eram tempos de rebeldia contra utopias e a doença ideológica. Eram anos de descobertas feitas em carne viva. Vivíamos enigmas, não tínhamos respostas. Repetíamos a palavra de ordem: Seja realista! Peça o impossível.

Respirei fundo e resolvi que O Filme da Minha Vida é O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. Assim que tomei fôlego saquei: minha escolha inclui e me faz perder menos porque nesse caso não é só o filme, também é o diretor da minha vida, é o grande ator, é a trilha sonora. Mais ainda: é o tema da minha vida mostrado na cidade mais impressionante, bela. Eros e Tanatos inseparáveis em plena Paris.

Não vou descrever o filme, muito conhecido. Prefiro lembrar as cenas jogadas na tela tomada pela cor da pele e o lusco-fusco do final de tarde borrado de um bege alaranjado com tons de marrom, contrastando luz e sombra nas paredes. Reflexos em vidros e espelhos. São instantes de raro realismo. É brutal. É visceral como Paul e Jeanne vivem o sexo. Fuga, para a tragédia pessoal da vida dele e anestesia, para as dúvidas existenciais dela, sob o olhar de Bertolucci, esse mestre generoso, que não julga, apenas mostra as sintonias e distonias do difícil e conflituoso relacionamento afetivo entre um casal, de onde emergem as diferenças, outras questões como a condição da mulher, o poder patriarcal, a luta com o sexo oposto, a moral, a honra, a religiosidade, a insensatez e a fragilidade humana.

Paul se isola, foge de sua vida para descarregar toda sua raiva através do sexo, mas é inundado por ela. Ele prefere grunhir porque não acredita mais nas palavras. Sua dor é tamanha que a realidade vem à queima roupa, crua. Desencantada. Mas, em meio à solidão que ele descreve como “o útero do medo e o cu da morte”, ele é capaz de dizer àquela que o mata: Poderíamos chegar ao orgasmo sem nos tocarmos. Jeanne se submete aos caprichos de Paul, numa atmosfera entre o fascínio e o medo, próxima da fantasia de muitas mulheres – ceder, entregar-se completamente ao macho (sim, no sentido animal, sem pudores), ser objeto de prazer feito de carne. As personagens são ambíguas e exageradas porque Bertolucci usa do excesso para, com sua ironia, denunciar os valores burgueses.

No filme da minha vida, Bertolucci é acompanhado pela extravagância lírica de Gato Barbieri, cujo sax-appeal caliente criou mais um personagem – a trilha sonora – misturando agogô, e berimbau em arranjos tremendos para a dança da carne, do desejo, dos corpos entrelaçados no ir e vir, encontro e desencontro, de dois mundos.

O filme da minha vida é feito de enigmas para terminar na cena mais louca, estranha que já vi: depois de ferido, Paul, antes de pular para morrer, olha longamente para a paisagem urbana de Paris e gruda seu chiclete exaurido na sacada.

Quem sabe a próxima blogagem coletiva seja a melhor cena de cinema da minha vida. E se acontecer, não será difícil para mim.

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29
abr
09

Hey,Joe!


fire!
Upload feito originalmente por Good vibration

Hey,Joe!
Vai pro sul,
Sem arma na mão,
Empunha a guitarra
Cânone sonoro
Ouve a sereia nórdica
Enfrenta o mar,
Titã!Go!

Ulisses, mira
De frente,
An Iceberg
Em plena Itália
Be cool
Congela Vulcânico
Sem os pés no chão

Naufraga sem medo,
Nem praia
Faz o oposto dos gregos
Desperta renascido,
Dispensa o fogo,
Cura o couro,  
Aquece a alma
Com gelo

Ele eriça seus desejos
Apaga pesadelos do destino
Enrijece a beleza da musa
Sua música

Derretida,
Lava todos os terços e inunda a missa
De água limpa
Benta Calábria
Com pimenta

Hey, Joe!
Where you gonna go?

 

* este poema é pro meu irmão Joe_Brazuca

 

 

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29
abr
09

Am Israel Chai

 AM ISRAEL CHAI – QUE VIVA O POVO DE ISRAEL!

israel 61 anos

NOSSA HISTÓRIA

Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península.
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros.

*Yehuda Amichai é poeta e escritor israelense nascido na Alemanha.
Tradução de Millôr Fernandes.




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