O tempo de redigir é o presente e é tenso. Tempo da iminência, urgência. Por isso, falo de dois temas cuja relação para mim é, ainda, desconhecida. Talvez, porque tratem de memes, padrões de comportamento mental repetidamente ativados e transformados em verdades, palavras de ordem, visões de mundo e preconceito. E os dois insistem desde ontem, a partir de ficções que imitam a vida ou será a vida que imita a arte, como indagou Oscar Wilde.
O primeiro tema trata, da história de Creso, último rei da Lídia, que no século 6 A.C que perante o inquietante avanço do rei Ciro II da Pérsia, enviou um mensageiro ao oráculo de Delfos que lhe respondeu que se conduzisse um exército contra a Pérsia, destruiria um grande império. diz a lenda: tentado pelo que disse o Oráculo, Creso organizou uma aliança com Nabonidus da Babilônia, Amasis II do Egito e a cidade grega de Esparta e partiu para a guerra, no entanto a guerra não correu como esperado. Ciro venceu Creso e o fez prisioneiro. O vaticínio foi cumprido: um grande império – o Lídio – foi destruído.
Meu pensamento não dá saltos muito lógicos, nem por isso, deixo de associar o rei que não soube interpretar o oráculo com a cautela dos sábios a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, disposto a retomar as negociações de paz sem condições prévias com os palestinos. Ao assumir uma postura ressentida, manipulando a opinião pública contra o Iran, aludindo a um 2º holocausto, Netanyahu , provavelmente assolado por interesses políticos óbvios mas não menos por dor profunda, cria para os outros além dele mesmo. Mais ainda, ele se despreza um exército pan arábico, coordenado pela Turquia (antiga Lídia do rei Creso) e Síria que, facilmente, faria um grande estrago a partir das colinas do Golan, espalhando-se por todo bloco oriental de Israel.

Se Netanyahu quer parar o Iran, nada indica que para o mundo, não seria interessante um Iran com armas nucleares parando o delírio de Neanyahu – Creso que cumpriria, assim, o vaticínio oracular marxista e faria a história ser repetida de forma mais patética. Um grande-pequeno país que é Israel seria destruído se essa bravata não for contida. Ressalto que não defendo os palestinos.
Conheço Israel porque lá estive durante um tempo razoavelmente logo. Vi os dois lados e concluí que se Israel é visto de forma distorcidíssima pelo mundo ocidental, os palestinos também o são. É uma pena que ao defender palestinos à moda memetizada do politicamente-correto (pelonasmo dos pleonasmos) esqueçam-se dos abusos que a liderança islâmica comete contra seu próprio povo, fazendo-o refém de hizbollahs e afins.
Num lance de memória afetiva que pode ser acusada de epifânica e romântica, volto às manifestações de paz, das quais participei levada por amigos escritores, psicanalistas, poetas, professores universitários da área de cinema e teatro, lá em Tel-Aviv, na antiga Praça dos Reis, hoje Praça Rabin. Desde os anos 90, israelenses – sabras feito os cactos do deserto do Sinai- espinhosos e rudes por fora e dulcíssimos por dentro – olhavam o futuro com toda esperança.

O outro tema é o da esquizofrenia, que vem pela ficção de Glória Perez, Caminho das Índias. A novela mostra a lenda que cerca a doença mental. Dois personagens jovens sofrem acometidos por doença crônica, e, portanto passível de controle pelo tratamento e que, hoje atinge 1% da população no mundo. De um lado Tarso, magistralmente interpretado por Bruno Gagliasso, cuja família classe média alta nega toda sua dor por preconceito e/ou neurose (não seria a mesma coisa?). Do outro lado, Ademir, magistralmente também interpretado por Sidney Santiago, que está em tratamento, só possível com o apoio da mãe e do irmão e consegue levar uma vida mais plena, expressando–se através da musica, sua escolha terapêutica, no âmbito do método criado pela genial Nise da Silveira.
Estudo divulgado pela revista médica britânica "The Lancet" informou que 43% das pessoas que sofrem de esquizofrenia sofrem algum tipo de discriminação por parentes ou amigos. E por isso, segundo pesquisa realizada pela Secretaria de Estado da Saúde e divulgada em abril de 2008, mais da metade dos pacientes psiquiátricos internados em hospitais do estado de São Paulo foi abandonada pela família e há um ano ou mais não recebem visitas. Deste modo uma novela, que o politicamente-corrreto, também ataca, presta importante serviço à população ao sensibilizar sobre a importância da reflexão sobre o preconceito contra a dor psíquica.
Assim como não vejo só um lado da questão no conflito árabe–israelense, não posso me furtar a insistir que muitos jovens de todas as classes sociais estão ameaçados por uma epidemia de psicoses tóxicas, disparadas pelo abuso de drogas como maconha (sim um “tapinha” da maconha de hoje, cujas cepas são geneticamente manipuladas desde os anos 70 é uma pancada dolorosa, equivalente a oito doses de malte escocês nos neurônios), metanfetamina (ice, cristal), crack e cocaína, sem falarmos no álcool que é uma droga socialmente permitida e nas seitas de daime e suas promessas desonestas em oferecer A VERDADE que infestam as cidades. Sei que há alguns grupos daimistas honestos contados nos dedos de uma só mão.
Nesta manhã de garoa, aqui na Bahia, de volta aos memes, à lenda, ao preconceito e à moda do politicamente correto, por favor, leitores, peço-lhes que parem um minuto, respirem , pensem com liberdade e repensem nas palavras de ordem: pela descriminalização das drogas, pela análise partidária do estado de Israel, pela simpatia ingênua aos abusos dos xiitas – islâmicos ou castristas, lulistas, petistas, deste presente tenso, complexo e eletrizante.
Shabat shalom a todos!
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